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Reforma Parte 1

Em Apocalipse capítulo 3, achamos a última das sete cartas às igrejas em Ásia Menor: a carta à igreja de Laodicéia. A carta é bem conhecida, mas a igreja não é. E como muitas coisas bem conhecidas, ela vem com alguma dificuldade. Quantos de nós lembramos um cântico de quando éramos mais jovens, aquele com que cantava com todo o seu ser, e, de repente, anos depois, você dá de frente com a letra do cântico escrita num lugar e descobre que o que você estava cantando todos esses anos era errado? Às vezes isso é o que a familiaridade faz para nós, até mesmo com a Bíblia. Às vezes há uma passagem que conhecemos bem e temos ouvido muito e até decoramos e um dia descobrimos que não é o que a Bíblia realmente quis dizer. 

 

É isso o que tem acontecido com a carta para a igreja em Laodicéia. 

Apocalipse 3.15-16: Eu sei de todas as coisas que você faz. Sei que você não é frio nem quente. Eu gostaria que você fosse frio ou quente! Mas porque você é morno, nem frio nem quente, estou pronto para te vomitar da minha boca!

A gente pensa, por causa de muitas pregações que temos ouvido durante os anos e por não entender a geografia por trás desta carta, que quente é bom e frio é mal, ou seja, Jesus está dizendo: “Eu preferia que você fosse a meu favor ou contra mim, mas porque você é nem um e nem outro, vou te vomitar”. Mas não é isso que Jesus está dizendo. Sabemos disso porque está falando para a igreja de Laodicéia. Em nenhum lugar da Bíblia vemos Jesus falando que ele teria mais respeito por alguém se fosse honesto e totalmente contra por alguém estar em cima da cerca.

Além disso, acabamos reduzindo isso ao um entendimento emocional; paixão e intensidade. Quente = apaixonado e intenso. Frio = indiferente. Assim entendemos que Jesus está dizendo que se você não está apaixonado e intenso sobre o que está fazendo, então não faz. Não é isso que ele está dizendo. Não tem nada a ver com paixão ou intensidade, estando a favor dele ou contra. Para entender essa passagem, temos que entender o contexto.

Laodicéia era rica em recursos naturais, mas faltava água. Ela não tem seu próprio abastecimento de água. Então a água precisava ser canalizada e tinha duas opções: Hierápolis ou Colossos. Colossos era a fonte de águas frias; água boa para beber. Ela ficava a 10 km de Laodicéia e assim, depois de passar por 10 km de canos, a água não era mais fria quando chegava, mas morna.

Agora, frio não é mal. Não, “é quente que é bom, frio é mal”. Quem já passou por um dia de verão bem quente sabe como um copo de água fria é boa. Imagine um domingo quente você andando para igreja e logo que chegar vai para o bebedor com aquela expectativa de água fria e quando você coloca a sua boca lá para beber sai água morna! O que você faz? Você a cospe fora. Eca! Entendeu!? 

Hierápolis era a fonte de águas quentes. Era um famoso resort de saúde, com banhos medicinais nas correntes. Tinha águas quentes, cheias de cálcio, mas não eram para beber. Se bebessem, poderiam vomitar. Lembro-me quando criança em que na casa do meu pai tinha um poço e a água que saía para a casa cheirava a ovos podres. Só de cheirar a água te levava a querer vomitar. Ninguém pensava em bebê-la. Assim, beber não era a coisa mais certa a se fazer com as águas de Hierápolis; não era o propósito delas. Ela ficava a 11 km de Laodicéia e quando chegava em Laodicéia não estava mais quente, porém morna, logo não servia para os propósitos medicinais. Da mesma maneira, quando a água fria de Colossos chegava morna, não servia para seus propósitos refrescantes.

Jesus não está dizendo: “Seja quente por mim. Seja apaixonado ou não seja apaixonado, seja a favor de mim ou contra mim”. O problema de Laodicéia não é a temperatura, mas a distância da fonte. O que ele está dizendo é: Por causa da sua distância da fonte, você não está realizando nenhum dos propósitos pelo qual você existe. Tem instâncias quando a igreja é para ser um copo de água fria num dia e quente em um outro dia, quando a igreja deveria ser um lugar de cura. O que Jesus está dizendo é que você não é refrescante e nem cura. Você é inútil a respeito do reino, morno provocando vômito. 

Quando falamos da Reforma protestante, imagens de teólogos debatendo e cinco pontos dançam nas nossas cabeças, mostrando como a gente não entende muito bem o que celebramos, pois as doutrinas eram os frutos da Reforma e não a sua razão.

Durante muito tempo, os primeiros cristãos foram perseguidos e até mortos por causa de Cristo. A situação mudou quando o imperador romano Constantino em 313 d.C. institui uma série de benefícios ao Cristianismo, tais como: isenção de impostos, terras, pagamento dos bispos e ajuda na construção de templos. Poder e dinheiro passaram a influenciar a vida da igreja, que em 392 d.C. se fundiu com o Estado, tornando-se a mesma coisa.

Com isso, muitos passaram a fazer parte da “nova religião”, não por convicção e fé, mas por favores e benefícios. Aquela vida comunitária, aquele amor cristão, partindo o pão de casa em casa e socorrendo os necessitados se tornaram práticas do passado. O Cristianismo começou a decair moralmente e seus fiéis não corresponderam mais à Palavra e a vontade de Deus.

Na Idade Média, quem mandava na igreja era o papa. Naquela época, ele tinha plenos poderes para instituir e derrubar reis e reinos. A igreja passou de perseguida a perseguidora e muitos sofreram nas mãos dessa “Igreja Cristã”. Foi criado o “clero”, que era uma liderança muito mais política que espiritual, e que mantinha uma distância enorme do povo. O clero não parecia de forma alguma com o grupo dos apóstolos que viviam em meio ao povo. 

E mais que isso, houve basicamente um total desvio da Palavra de Deus nesse período. 

Nas últimas décadas antes da Reforma de Martinho Lutero houve uma aberta demonstração de imoralidade entre os líderes da igreja. Aqueles que se diziam ocupar o lugar de Deus na terra mergulharam de uma vez por todas na corrupção e na prostituição. Houve quem comparasse os papas dessa época aos terríveis imperadores romanos que viveram próximos ao início da era cristã e foram reconhecidos pela sensualidade e imoralidade. Foi dito: “Os cardeais que residiam em Roma não procuravam resguardar as amantes das vistas do público”. A paixão aos jogos os envolvia na perda e no ganho de somas enormes em uma só noitada. E os papas assistiam as sujas comédias representadas no Vaticano. 

Todos esses atos de dominação, corrupção e imoralidade acabaram enfraquecendo a igreja e o papa acabou perdendo o respeito e o prestígio das ordens leigas da igreja submetidas a ele. Surgiram a partir de então movimentos internos que clamavam por reforma. Dentre esses, destacamos os personagens de João Wycliffe, na Inglaterra, e João Huss, na Boemia.

Tanta imoralidade e perversão acabaram por propiciar a entrada desse novo movimento. O mundo necessitava de Deus, da sua Palavra e de uma transformação que abrangesse não só a sua vida espiritual, mas também a restauração da dignidade humana. Os desejos dos reformadores para voltarem a Palavra não eram por questões de debate, mas da vida cristã vivida, a moralidade.

John Wycliffe nasceu em Hipswell, Yorkshire na Inglaterra, em 1329 quase 200 anos antes da Reforma. As suas crenças e ensinos eram bem iguais aos de Lutero, Calvino e outros reformadores. Seus escritos e exemplo inspiraram Huss e Lutero. Como um homem à frente do seu tempo, os historiadores chamaram Wycliffe de "A Estrela da Manhã da Reforma". Ele ensinava que os concílios e a liderança da igreja deveriam ser provados pelas Sagradas Escrituras. A palavra do papa e a tradição da igreja não poderiam ter uma autoridade de maior peso do que a da Bíblia. A Bíblia é a única regra de fé e prática. Ela é o suficiente para suprir as necessidades da alma humana, sem que sejam necessárias as intervenções da igreja e as mágicas de seus sacerdotes. Ele também entendeu que as Escrituras deveriam ser colocadas nas mãos do povo e não limitadas ao clero, isto é, a liderança da igreja. 

Há mil anos, a igreja fez uma lei que apenas pastores e padres, treinados em grego, hebraico e latim podiam ler, estudar e ensinar a Bíblia.

Assim a igreja tornou ilegal traduzir a Bíblia para a língua comum do povo. Na igreja, a Bíblia foi lida em grego ou latim, para que apenas aqueles que entendiam estas duas línguas conseguissem entender o que estava sendo lido.

E porque a Bíblia não tinha permissão para ser lida e estudada pela pessoa comum, a igreja e a cultura entraram em o que hoje é conhecido como a Idade das Trevas. A igreja governou o povo com uma mão de ferro. Eles disseram às pessoas o que podiam e não podiam acreditar, e as pessoas, porque não podiam estudar a Bíblia por si mesma, teve que aceitar o que a igreja disse.

Por isso Wycliffe traduziu a Bíblia do latim para o inglês. Esta tradução começou o período na história da igreja conhecida como a Reforma. Wycliffe acreditava que qualquer pessoa deveria ter a oportunidade de ler e interpretar as Escrituras e cada cristão deveria possuir uma Bíblia para ler, estudar e aplicar à sua vida. Cerca de 200 anos depois de Wycliffe, a Reforma realmente ganhou força com homens como William Tyndale e Martinho Lutero. Tyndale fez outra tradução em inglês da Bíblia e foi queimado na fogueira por causa disso. Martinho Lutero fez uma tradução alemã da Bíblia e foi condenado como herege pela Igreja Católica.

No dia 28 de dezembro de 1384, aos 55 anos, Wycliffe sofreu um derrame, falecendo três dias depois, no último dia do ano. Frustrados por não o terem queimado vivo, os líderes da igreja, 44 anos depois da sua morte, pela ordem do Papa, desenterraram seus ossos e os queimaram. 

João Wycliffe envolve-se numa batalha de fé pela Verdade das Escrituras, colocando a Bíblia nas mãos do povo, ensinando-a e tentando tirar o povo das mãos daqueles que exploravam suas vidas. O homem morreu, mas deixava uma mensagem viva, um exemplo de luta pelo Evangelho. 

João Huss foi chamada “A Semente da Reforma”. Ele foi um homem de origem simples que nasceu no vilarejo de Hussinecz, sul da Boemia. Huss não foi um aluno brilhante, mas parecia determinado a estudar e crescer. Assim, formou-se na universidade, tornou-se Mestre e dirigente da Capela de Belém, em Praga; uma cidade importante em seu país. Nessa igreja, Huss pregava na língua do povo. Nas outras, o serviço religioso era feito em latim. Huss foi um pastor dedicado. Sua preocupação era agradar a Deus com uma vida santa e prover sólida alimentação espiritual ao povo. 

Ao tomar os primeiros contatos com os escritos de Wycliffe, Huss escreveu na margem de seus papéis: “Wycliffe, Wycliffe, você vai virar muitas cabeças”. Huss, influenciado pelos escritores de João Wycliffe, tornava-se cada vez mais um apaixonado pela reforma da Igreja de Jesus Cristo e começou então a andar em terreno perigoso. E como Wycliffe, que atacou as corrupções, superstições e abusos dos frades e monges, Huss criticava duramente os líderes da igreja por usarem seus ofícios em benefício próprio, vivendo no conforto e na imoralidade. Para Huss, a autoridade de um líder religioso vinha do seu caráter e não da sua posição.

Como podia ser esperado, Huss, anos depois, foi acusado pela igreja de Wycliffismo. Excomungado já quatro vezes, Huss resolveu exilar-se voluntariamente, para que sua igreja não fosse privada das ministrações. Foi para o sul da Boemia, onde escreveu livros e pregou em alguns vilarejos. Em 1415, ele foi condenado e queimado na estaca depois de um escárnio de tribunal. Na presença de homens, mulheres e crianças, Huss foi amarrado numa estaca e lhe deram mais uma oportunidade para rever seu ensino. Mas em um grito respondeu: “Deus é minha testemunha de que a minha principal intenção foi tão somente libertar os homens de seus pecados e, baseado na verdade do Evangelho que preguei e ensinei, estou realmente feliz em morrer hoje”. Com estas palavras um sinal foi dado ao executor acender a fogueira. E entre chamas e fumaça, Huss entoou uma melodia “Jesus, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim”. Huss morreu cantando.

Aqui nós vemos o começo da Reforma. Deus preparou homens, os colocou em posições de influência e autoridade e começou trazer a igreja de volta para o seu noivo. 

Wycliffe e Huss foram sementes semeadas a seu tempo, que brotaram anos mais tarde, cujos frutos colhemos ainda hoje. E anos mais tarde os reformadores levantaram a bandeira da “Sola Scriptura”, em favor da suficiência e autoridade exclusiva da Palavra de Deus sobre qualquer dogma ou direção humana. A semente do ensino de Wycliffe e Huss, até hoje, dá os seus frutos. A presente lição serve como um alerta para a igreja de hoje. Os crentes devem viver uma vida santa e, ao mesmo tempo, devem estar prontos para confrontar a igreja sempre que ela se afastar do ensino bíblico. 

Parece que com tempo o pensamento da reforma só volta a ideia de confrontar a igreja, algo que podemos celebrar e dar continuação quando for necessário, mas esquecemos que era também sobre a vida santa. Como o próprio Huss falou: “A autoridade de um líder religioso vinha do seu caráter e não da sua posição”. E isso é algo que nós temos perdido e devemos lamentar. 

Hoje nós temos pastores que mentem, pastores que roubam, pastores que traem suas esposas, pastores divorciados e casados de novo, pastores com problemas de bebida, pastores que se masturbam, pastores que violentam membros das suas congregações, pastores que usam drogas, pastores que tem problemas com pornografia, pastores que pagam por programas com prostitutas e pastores homossexuais. 

Houve uma época em que o título de pastor levava com ele um certo peso, um respeito.  Mas hoje em dia, o termo pastor está mais ligado com escândalo. Não que o título tem que levar certa perfeição em si para ser válido, mas quando aqueles encarregados de um título que deveriam representar algo de Deus e ser um ponto referencial para a igreja estão cometendo pecados que a maioria da igreja não comete, nós temos problemas maiores do que queremos admitir. E é isto que nós estamos vendo, e é isto que devemos lamentar.  Membros tentados a roubar ou trair a esposa ou ter um encontro homossexual estão lutando e achando como não cair em pecado. Entretanto os próprios pastores que falam contra esses maus não estão achando com não cair e pior estão vivendo em pecado mostrando uma face para a congregação e outra para trás das portas até que alguém descobre e a casa cai, inclusive a porta. Por isso o título “pastor” não está sendo levado a sério por muitas pessoas. Escândalo é sinônimo de pastor. 

Celebramos uma reforma que aconteceu 500 anos atrás e eu por vez estou feliz pelo que aconteceu e grato a todos que deram as suas vidas para que pudéssemos viver a vida cristã que vivemos hoje, livres para adorar e com a Palavra de Deus em nossas próprias línguas. Mas a minha alegria não é completa, pois há muitas coisas que provocaram a Reforma que não têm mudado até hoje. Coisas pelas quais devemos lamentar. É difícil eu celebrar a cura da lepra da igreja enquanto ela está morrendo de câncer.

Estamos longe da fonte como a igreja de Laodicéia. Estamos longe da fonte da Reforma e entendendo a razão dela. E pior, estamos longe da fonte da vida. Somos mornos e não estamos realizando os propósitos pelos quais fomos resgatados e existimos. Não somos luz nas trevas, nem sal da terra. Não somos reformadores. Somos impostores defendendo doutrinas enquanto falhamos na prática da vida, na necessidade de sermos exemplos de vidas transformadas.

Temos que começar a exigir dos líderes de igrejas que sigam o exemplo do Apóstolo Paulo que falou em 1 Coríntios 11:1: “E vocês devem me imitar, assim como eu imito a Cristo”; que eles imitem a Cristo ou sair fora. Temos que exigir das nossas igrejas que sigam as qualificações para pastores citadas em Tito 1:5-9; 1 Timóteo 3:1-7 e 1 Pedro 5:1-4. Só assim, teremos mesmo algo para celebrar da Reforma. Se não, simplesmente estaremos celebrando a cura de lepra enquanto a igreja morre de câncer.

Ademais, temos que lembrar que a Reforma Protestante foi muito mais um protesto contra a imoralidade e um clamor por uma reforma moral e ética do que uma mudança teológica. Podemos celebrar o que a Reforma nos trouxe, mas seria muito mais propício se lamentarmos o que ainda nos falta e continuar protestando até não faltar mais. 

Obrigado, mas eu não quero apenas um pedaço do bolo com o número “500” escrito em cima. Tenho algo preso na minha garganta.

Jeff