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Aproximadamente 100 anos depois da morte de João Huss veio Martinho Lutero e suas 95 Teses e sem dúvida, é isso que mais lembramos sobre Lutero. A crítica pública de Lutero da igreja em 1517 marcou o início simbólico da Reforma Protestante. Vamos entender bem e não esquecer que era um protesto moral e não teológico. Ele estava protestando contra o que ele via como uma série de abusos sendo cometido pela Igreja Católica Romana. O ponto principal de seus argumentos era que a Igreja não devia vender indulgências. Era a manifestação final de um esforço prolongado e sem sucesso em convencer a Igreja Católica a reformar a partir de dentro. Isto representou a ruptura de Lutero da Igreja, mesmo sem ele saber. Pois ele mesmo escreveu mais tarde que naquele tempo ele permaneceu leal ao papa e não pensava que suas 95 Teses representavam uma ruptura com a doutrina Católica. A história nos mostra diferente. Ele é considerado o pai espiritual da Reforma Protestante.

Lutero tinha sido um discípulo devoto da Igreja Católica, um monge e erudito religioso que dedicou sua vida a pratica e ensino dos princípios centrais do cristianismo. O que o levou para longe da Igreja Católica, no entanto, não foi nem por uma questão teológica e sim, uma questão de integridade e princípio.

Purgatório, Indulgências e as 95 Teses

Purgatório, o lugar para onde alguém vai se não foi mau o suficiente para ir direto para o inferno ou bom suficiente para ir direto para o céu e precisa ser purificado para atingir o nível de santidade necessário para entrar no céu. Foi teorizado no pontificado do Papa Gregório I, em 593.

Uma das maneiras que alguém podia reduzir seu tempo ou o tempo de outra pessoa no purgatório era por meio de indulgências. A indulgência é a remissão (parcial ou total) do castigo temporal imputado a alguém por causa dos seus pecados. Naquele tempo qualquer pessoa poderia comprar uma indulgência, para si mesmo, ou para um parente já morto que estivesse no Purgatório.

Os oficias da igreja argumentavam que os sacerdotes estavam fazendo bem mais “boas obras” que eram necessários e assim, as suas “contas” com Deus havia mais crédito do que se precisava para pagar por seus pecados. Então, por que não vender aquelas que sobravam para pessoas precisando de uma ajuda? E assim entrou a ideia de indulgências. Você poderia comprar da igreja o crédito de boas obras feito por uma outra pessoa. Com a aprovação do papa, os bispos podiam vender suas indulgências. A transação era feita através de um papel representando a indulgência que certificava que a boas obras do bispo tinham “pago” a dívida de boas obras do indivíduo ou de um parente já morto que estava ainda sofrendo no purgatório.

Mas vamos deixar uma coisa bem claro aqui. As indulgências foram criadas pela igreja por uma só razão: gerar dinheiro.

O Papa Leão X concedeu a venda de indulgências para arrecadar dinheiro para as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma. A figura à frente dessas vendas de indulgências, não muito longe de Wittenberg, onde Lutero era professor de teologia, foi Johann Tetzel, um monge Dominicano, bem conhecido por sua imoralidade e bebedeira. Uma frase bem conhecida de Tetzel era: “Quando a moeda no cofre soar, a alma do purgatório irá saltar”.

Lutero estava gravemente preocupado com a maneira pela qual a entrada no céu estava ligada a uma transação financeira. Ele viu esse tráfico de indulgências como um abuso que poderia confundir as pessoas e levá-las a confiar apenas nas indulgências, deixando de lado a confissão e o arrependimento verdadeiro. Foi esse abuso que deixou Lutero revoltado.

Assim no dia 31 de outubro de 1517 as 95 Teses foram pregadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um convite aberto ao debate sobre elas. Essas teses condenavam a avareza e o paganismo na igreja como abuso, e pediam um debate teológico sobre o que as Indulgências significavam. Esse debate nunca aconteceu.

Ainda que as teses fossem escritas em latim e só destinadas para o debate acadêmico, elas tiveram o efeito de dinamite para os outros, que começaram a fazer cópias nas prensas de impressão, tanto em latim como em alemão. Em vez de ser um debate de eruditos, a povo alemão ficou inteirado do assunto.

As 95 Teses representaram coragem, desprendimento, uma preocupação legítima com o estado decadente da Igreja e uma busca dos verdadeiros ensinamentos da Palavra.

Mas a venda de indulgências não era o único desacordo de Lutero com a instituição da Igreja. A revolta de Lutero foi eminentemente espiritual. Não poderemos compreender a Reforma se acharmos que Lutero foi movido apenas por uma revolta contra pessoas, contra padres corruptos. A ação de Lutero foi uma revolta contra uma estrutura errada e uma doutrina errada de uma igreja que distorcia a salvação.

Martinho Lutero foi muito devoto e experimentou uma crise espiritual. Ele concluiu que não importava quão "bom" ele tentasse ser, não importava como ele tentasse ficar longe do pecado, ele ainda se achava com pensamentos pecaminosos. Ele temia que não importava quantas boas obras ele fizesse, ele nunca poderia fazer o suficiente para ganhar seu lugar no céu (lembre-se que, de acordo com a Igreja Católica, fazer boas obras, por exemplo, comissionar obras de arte para a Igreja, ajudou alguém ganhar entrada ao céu). Este foi um profundo reconhecimento da pecaminosidade inescapável da condição humana. Afinal, não importa o quão gentil e bom tentamos ser, todos nós nos achamos tendo pensamentos que são desagradáveis ​​e às vezes muito pior. Lutero encontrou uma saída para esse problema quando leu o Apóstolo Paulo, que escreveu: "O justo viverá pela fé" (Romanos 1.17). Lutero entendeu isso significar que aqueles que vão ao céu (o justo) chegarão pela fé sozinho; não fazendo boas obras. Em outras palavras, a graça de Deus é algo livremente dada aos seres humanos, não algo que possamos ganhar. Para a Igreja Católica, por outro lado, os seres humanos, através das boas obras, tinham alguma parte em sua salvação.

Se quisermos, podemos agradecer o Jonann Tetzel pela Reforma, pois se Lutero foi seu pai espiritual, Tetzel foi o médico que provocou seu nascimento. Tetzel colocou a Reforma em movimento. Ele foi a gasolina que incendiou a tocha de Lutero. Pela sua exploração desavergonhada da indulgência, ele abriu o caminho para a doutrina sólida avançar e acabar com o absurdo da salvação alcançada por merecimento.

Por todos os seus esforços, Lutero acabou sendo denunciado no Dieta de Worms pelo Imperador como “um herético notório”, que devia ser silenciado. Lutero foi chamado de criminoso que cometeu alta traição e, consequentemente, recebeu uma sentença de morte. Bom que ele tinha saído no dia anterior. Pelo o resto de sua vida, Lutero foi um proscrito com um preço por sua cabeça. Foi protegido na Saxônia pelo Príncipe Frederico, mas estava debaixo da sentença de morte em qualquer outro lugar.

Nesse período Lutero trabalhou por quase um ano, e traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão; a primeira tradução moderna do grego em uma língua vernácula.

Lutero deu a Reforma um começo, não um fim. Quando ele morreu em 1546, a Reforma foi estabelecida, mas os seus maiores frutos ainda estavam por vir.

A Reforma do Século XVI foi um grande reavivamento espiritual operado por Deus, que começou com uma experiência pessoal de conversão; uma revolta de um homem contra os abusos da igreja, principalmente a venda de salvação.

Sem dúvida isso é algo que podemos e devemos celebrar, pois sem a birra de Lutero a respeito das indulgências, não teríamos nada a celebrar esse ano. Não teria 500 anos de nada. Mas ao mesmo tempo devemos lamentar o fato que a igreja continua vendendo os favores de Deus ao um povo que mal respeita o que está sendo explorado.

O que 500 anos atrás foi chamado de indulgência a igreja hoje chama de dízimo, algo que o próprio Martinho Lutero rejeitou.

Pela maior parte da história a igreja e o estado estavam juntos e assim a igreja foi sustentado pelo estado. Isso começou a mudar principalmente nos EUA no final do século 18 quando a igreja e o estado se separaram. Assim as igrejas precisavam ser criativas para levantar recursos. No fim do século 19 começou uma prática de alugar os bancos na igreja. Aqueles na frente eram mais caros. Uns pastores não gostavam da prática e decidiram passar um prato para as pessoas poder ajudar e ali começou a prática moderna que temos de “tirar oferta”. Outros, mais astutos procuravam respaldo bíblico para motivar os seus fieis a doarem e aí então entrou a prática do dízimo moderno. O dízimo não foi ensinado, praticado ou mesmo sugerido nos EUA até 1873. Ele foi introduzido pela primeira vez na Convenção Batista do Sul em 11 de maio de 1895 e foi prontamente rejeitado pelos crentes. Mas com um pouco de perseverança e insistência dos pastores as pessoas passaram a ver o dízimo como um mandato bíblico, uma questão espiritual e um ato de adoração.

Uma das críticas mais lançadas sobre as seitas é que elas ensinam coisas que a Bíblia não ensina. É importante que nós ensinamos a verdade; algo respaldado na Palavra. Foi isso que Paulo lembrou a Timóteo, “Preste atenção na sua doutrina”. Creio que a maioria de nós afirma que a verdade é importante e que a única fonte de verdade na igreja é a Bíblia. Por que então ensinamos algo ao povo de Deus que o Novo Testamento não ensina? Por que insistimos em passar dízimo para eles como se fosse algo atual e com base Bíblica?

Essa é uma grande pergunta para mim. Como que é que os líderes de hoje conseguem ensinar com tanta convicção algo que não está no Novo Testamento e não faz parte da Nova Aliança? Para mim, o negócio é o seguinte, sem Escritura, sem autoridade. Mas, por isso acho que os pastores chamam à frente as pessoas para darem testemunhos, pois o que falta na Palavra pode ser substituído com emoção e a promessa de bênçãos, ou no mínimo, isso é o pensamento comum.

Na verdade, acho que temos três coisas contribuindo para esse erro e abuso.

O primeiro é uma grande falta de pastores ter estudado o assunto. Em vez de falar da própria experiência de ter lido e procurado entender o que as Escrituras ensinam a respeito do dízimo, os pastores se tornaram papagaios de instituição que somente repetem o que foi falado a eles.

A segunda é essa nova geração de pastores ligados demais com as coisas desse mundo, desejando as coisas desse mundo, amando as coisas desse mundo. E alguém tem que comprar tudo que eles querem e pagar suas contas extravagantes. Pense nisso a próxima vez que ver seu pastor passar na sua frente com um carrão enquanto você está no ponto de ônibus esperando a sua “carona”.

A terceira razão é um pouco óbvio, pois muitos líderes têm problema em conseguir que seu povo contribua sem uma motivação de medo ou retribuição. Por isso usam aquela linha de “Deus vai te amaldiçoar”. E vamos ser honestos, os pastores não obrigam o pagamento do dízimo porque querem ver as janelas do céu se abrindo. Eles querem o dinheiro deles. Se forem abençoados beleza, se não, o que fazer? Qualquer pastor que parasse para sondar o seu coração vai ser obrigado a admitir que a maior preocupação da igreja não é almas, mas dinheiro; não é os membros sendo abençoados, mas as contas sendo pagas. Por isso se agarrem numa doutrina não achada, ensinada na igreja primitiva ou por nenhum dos apóstolos. Eles precisam gerar grana e ainda que precisam manipular a bíblia um pouco para apoiar o seu ensinamento, é por uma boa causa. É bem como a Igreja Católica criou indulgências para levantar recursos para reformar a Basílica de São Pedro, deixando Lutero revoltado.

Onde estão os Luteros de hoje que se levantarão para pregar as suas teses na porta da sua igreja? O meu ódio pelo o ensinamento e pela prática errada de dízimo hoje não é porque acho que as pessoas não devem dar, pelo contrário, devem. Isso faz parte da vida cristã como somos ensinados mesmo no Novo Testamento de ser generosos, faz parte da questão que aqueles que nos alimentam são sustentados pela igreja. Concordo plenamente com isso e defendo. O meu problema é de criar uma lei onde não existe e prometer benções para os que a seguem e ameaçar os que não seguem com algum tipo de maldição (devorador), os chamando de nomes tipo “ladrão”. Isso eu acho muito errado. E o pior de tudo isso é que há tanta ênfase colocada em cima de dar e receber, fazendo negócios com Deus, o povo acha que isso é Cristianismo. Ninguém mais fala sobre se negar ou tomar sua cruz sobre si, como se fosse um versículo na Bíblia que talvez fala algo sobre isso. É tudo benção, prosperidade, riquezas, comendo o melhor da terra, templos de Salomão. Se duvidar, marca no seu relógio quanto tempo for gasto falando de oferta esse domingo e o comparar com quanto tempo for gasto falando da cruz. Ou presta atenção nos cânticos sendo cantados. Quantos tem a ver com benção ou prosperidade, ou pegando de volta o que é teu. Assim gastamos tempo fingindo adorar a Deus enquanto cantamos sobre coisas que estão ligadas aos nossos interesses. Onde foram os dias de “Graça Maravilhosa”?

Podemos celebrar o que Deus trouxe por meio de Lutero, mas necessitamos lamentar o fato que a própria coisa que o causou a se levantar e pregar as suas 95 Teses na porta da igreja em Wittenberg continua até hoje, porém por um outro nome: dízimo.